Médicos urologistas estão testando um
remédio feminino, usado para induzir a ovulação, no tratamento
da andropausa, a chamada menopausa masculina. A andropausa é
caracterizado pela queda drástica dos níveis de testosterona nos
homens com mais de 40 anos, o que provoca, entre outros efeitos,
queda na libido e dificuldades de ereção.
O tratamento padrão é feito com a
reposição hormonal. Mas, segundo o urologista Celso Gromatzky,
há dois anos estudos têm demonstrado benefícios no uso do
medicamento feminino. "É uma boa opção de tratamento,
especialmente para homens com histórico de doença cardíaca",
diz. Leia abaixo trechos da entrevista que Gromatzky concedeu à
Folha.
Folha - Há uma tendência de
prescrever reposição hormonal para homens acima de 40 anos
indiscriminadamente?
Celso Gromatzky - Há uma tendência forte de aumentar a
indicação de reposição para homens com queda da testosterona.
Não porque a doença tenha aumentado, mas porque hoje se conhece
melhor o problema.
O que é andropausa?
Gromatzky - É uma deficiência hormonal que atinge cerca
de 15% dos homens a partir dos 40 anos. A testosterona vai
caindo lentamente com a idade, mas só 15% deles vão obter
valores abaixo do normal. Ou seja, 85% dos homens terão níveis
absolutamente normais durante a vida toda. Isso diferencia de
forma muito clara a condição do homem e da mulher.
Então a andropausa é considerada uma
doença? Gromatzky - Sim. A menopausa ocorre naturalmente em
todas as mulheres. Mas a falta de hormônio não é parte do
processo natural de envelhecimento masculino. Não sabemos por
que esses 15% têm o problema.
E quais são os principais sintomas?
Gromatzky - Cai a libido, a qualidade da ereção piora e
pode haver um prejuízo na intensidade do orgasmo.
Quais são os outros impactos na
saúde?
Gromatzky - A falta de testosterona tende a causar pele
seca e unhas quebradiças. Também causa a perda da massa muscular
e pode favorecer o acúmulo de gordura na região abdominal. Já no
sistema nervoso central, diminui memória, concentração, provoca
perda da motivação e uma tendência à depressão. Aumenta o risco
de osteoporose e fraturas.
Esses sintomas não se confundem com
depressão?
Gromatzky - Sim. Para fazer o diagnóstico, o homem
precisa ter o hormônio abaixo do nível normal associado a três
ou mais sintomas.
Pode acontecer de o hormônio estar
baixo e o homem não ter sintomas?
Gromatzky - Pode, e isso não caracteriza a andropausa. E,
se ele tem sintomas, mas a dosagem do hormônio está normal,
também não.
O diagnóstico é feito com um exame
de sangue?
Gromatzky - Sim. A testosterona é uma molécula que
percorre o sangue em três formas: uma delas é a testosterona
livre, a fração que atua nos órgãos alvo. A outra é ligada à
globulina SHBG, e a terceira, à albumina. O exame de sangue dosa
a testosterona total, que é a soma dessas três formas, mas
existe uma fórmula para calcular só a testosterona livre -que
causa sintomas.
A reposição hormonal, então, é
indicada apenas para esses homens?
Gromatzky - Exatamente. Expor um homem com os níveis
normais à aplicação de testosterona sintética traz consequências.
Uma delas é a diminuição da produção de espermatozoides. A outra
é o aumento da viscosidade do sangue, que pode causar derrame ou
infarto.
Existe um controle ou ainda há
homens que fazem reposição sem necessidade?
Gromatzky - O uso indiscriminado de testosterona é um
erro médico. Tanto que ela é um medicamento de controle
especial.
Existe alguma novidade no
tratamento?
Gromatzky - O tratamento é feito com hormônios
sintéticos, aplicados por injeção intramuscular. Mas, nos
últimos dois anos, alguns trabalhos demonstraram que o citrato
de clomifênio, indicado para induzir a ovulação em mulheres,
estimularia a fabricação de testosterona.
Essa medicação é usada aqui com
essa finalidade?
Gromatzky - Sim, ainda na forma "off-label" [quando o
médico recomenda um remédio para um uso não indicado na bula].
As experiências são positivas. É um caminho para pacientes que
não podem receber hormônio.
Quem são esses pacientes?
Gromatzky - Aqueles que já sofreram um derrame ou
infarto. Eles não podem correr o risco de aumentar a viscosidade
do sangue. Mas deixo claro que é uma alternativa não consagrada.
A reposição é por tempo
determinado?
Gromatzky - Não. Uma vez estabelecido o diagnóstico, é
pouco provável que esse homem volte a fabricar testosterona
naturalmente. Teoricamente, ele terá que fazer a reposição pelo
resto da vida. Por isso é preciso muito critério para propor o
tratamento.