A batalha para evitar o crescimento de
cepas de bactérias ultrarresistentes aos antibióticos tem uma
nova frente: os alimentos de origem animal.
O alerta foi feito na semana passada
pelo FDA, órgão regulador de medicamentos e alimentos dos EUA,
que produziu um relatório sobre a importância de reduzir e
controlar o uso desses medicamentos em animais destinados ao
consumo humano.
O documento, que não tem caráter de
lei, busca conscientizar os produtores.
O FDA emitiu o alerta baseado em
estudos mostrando que o uso desses remédios contribui para o
desenvolvimento de bactérias que infectam seres humanos e não
respondem aos medicamentos.
Para David Uip, diretor do Instituto
de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo, o problema da
resistência bacteriana é multifatorial e é preciso reavaliar as
práticas de vários setores para combatê-lo.
"O surgimento de novas cepas nas
comunidades também está relacionado ao uso de antibióticos em
produtos alimentares, mas é claro que não é só isso", diz Uip.
Entre os antibióticos usados em
animais, há medicamentos que combatem bactérias como
estafilococos e enterococos, que contaminam humanos e desafiam a
medicina com o surgimento de cepas mais resistentes.
"Para criar novos antibióticos,
precisamos de milhões de anos. Temos de criar políticas globais
para evitar que as bactérias [em circulação] parem de responder
aos remédios existentes", diz Uip.
Antibióticos são usados em gado e em
aves para tratar doenças que podem vitimar os animais e
contaminar humanos. O animal só é encaminhado para abate após
estar curado e passar por um período de carência, no qual os
resíduos do medicamento são eliminados.
"De três a cinco dias após a medicação
ser suspensa, não há mais resíduo do antibiótico na carne", diz
Cláudio Alvarenga, coordenador de defesa agropecuária da
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de SP.
Mas as bactérias resistentes se
desenvolvem antes de o animal ser destinado ao consumo,
especialmente com o uso prolongado de baixas doses de
antibióticos nos animais, segundo a Organização Mundial da
Saúde.
A utilização de antibióticos, assim
como de outros medicamentos veterinários, é regulamentada pelo
Ministério da Agricultura e Abastecimento. Na lista de produtos
autorizados estão alguns grupos de antibióticos.
Como o produtor não precisa de receita
médica para adquirir os remédios, é difícil saber se o
antibiótico está sendo usado sem exagero.
"Exigir receita e orientação de um
veterinário pode ajudar no controle e reduzir o risco de
criarmos bactérias resistentes", diz Alvarenga.
Fonte: Folha Online