Uma dissertação produzida no Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz)
propõe uma metodologia inédita para verificar a eficácia
antimicrobiana do álcool etílico sob a forma coloidal, o
conhecido álcool gel. Apesar de o produto ser comumente
comercializado nas farmácias e utilizado na higiene e limpeza
doméstica, não existe um procedimento laboratorial válido para
fiscalizá-lo. “Nossa metodologia pode ser uma solução, pois os
resultados que obtivemos no Instituto se mostraram confiáveis”,
afirma a bióloga Alessandra Oliveira de Abreu, autora da
dissertação.
O álcool gel ganhou importância após
uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
que proibiu a venda, junto à população, de álcool etílico
líquido com graduações acima de 54º GL. Tal proibição foi
justificada em virtude do alto número de acidentes domésticos
envolvendo este produto, sobretudo com crianças.
No entanto, apesar da boa intenção da
Anvisa, ao contrário de sua versão líquida, o álcool
coloidal não conta com metodologia válida que permita aos
laboratórios de vigilância sanitária garantir sua eficácia como
biocida.
Tal problema serviu de estímulo para
Alessandra em seu mestrado. A ideia foi adaptar uma técnica
laboratorial já existente e validada, chamada de método para
avaliação da atividade bactericida de desinfetantes nas formas
de spray e aerossol.
Em uma primeira etapa, a bióloga
preparou em laboratório um álcool líquido a 70º GL e o avaliou
por meio de uma técnica conhecida como método de diluição de
uso. Este funciona da seguinte maneira: os técnicos contaminam
pequenos cilindros de aço com bactérias para depois lhes aplicar
um produto desinfetante líquido (como o álcool, por exemplo).
Posteriormente, esses cilindros são transferidos para tubos com
meio de cultura, ou seja, com nutrientes, temperatura e
condições favoráveis para o crescimento e proliferação dos
microrganismos. Passadas 48 horas, se alguma bactéria tiver
sobrevivido à aplicação do álcool no cilindro de aço, ela
encontrará oportunidade de se reproduzir no meio de cultura, o
que atestará a ineficiência do produto desinfetante. Caso
contrário, o produto estará aprovado.
Obtidos os resultados satisfatórios
para seu álcool, Alessandra teve segurança para verificar se
obteria os mesmos efeitos pelo método com spray. Este
difere do primeiro ensaio pelo fato de empregar lamínulas de
vidro ao invés dos cilindros de aço e da aplicação do álcool a
ser testado ter sido feita através de um borrifador.
O motivo da troca justificou-se porque
o álcool gel, ao ser aplicado nos cilindros, forma bolhas, o que
deixa algumas áreas contaminadas sem contato com o produto.
“Isso não ocorre com as lamínulas, além disso, elas aproximam-se
mais da realidade da atividade doméstica, visto que normalmente
as pessoas aplicam o álcool em panos para depois passá-los em
superfícies”, explica a pesquisadora.
Testado o método para spray e
aprovado para o álcool líquido, a bióloga buscou adaptá-lo para
o equivalente na forma coloidal. Como o borrifador não
funcionava para a aplicação do álcool gel, Alessandra o
substituiu por uma pipeta. Na sequência, ela fez com que testes
fossem aplicados em dias variados e por diferentes técnicos do
INCQS. Os resultados obtidos foram considerados “bastante
promissores”, o que ocasionou a aprovação de sua dissertação.
Apesar do sucesso, a técnica inédita
ainda precisa ser validada por meio de estudos que confrontem e
analisem seus resultados quando ela for aplicada por
profissionais de outros laboratórios do país. “É o que pretendo
realizar em meu doutorado”, conclui Alessandra. A dissertação da
pesquisadora chama-se Estudo para determinação de metodologia
analítica para comprovação da eficácia antimicrobiana do álcool
etílico na forma de gel.
Fonte: Fiocruz